Eu sou. — O texto que eu escreveria
Eu sou. — O texto que eu escreveria (intacto, sem firula) Eu sou. Não …
Eu sou. — O texto que eu escreveria (intacto, sem firula) Eu sou. Não …
Lá nos tempos do ronca, quando tudo parecia funcionar devagar, pelo menos a gente tinha uma coisa: controle público. Não era perfeito, mas quem mandava nos serviços essenciais? O Estado. E esse controle fazia a diferença na distribuição de água, luz, transporte público e outras infraestruturas essenciais. As empresas estatais, embora acusadas de serem ineficientes, ofereciam um serviço confiável, com uma lógica simples: lucro não era a prioridade. O objetivo era garantir que o povo tivesse acesso a esses recursos, e ponto.
Agora, corta para os dias de hoje, onde o capitalismo de mercado tomou conta de quase tudo que gera dinheiro, com megaempresas de tecnologia e corporações se alimentando vorazmente de cada espaço privatizado. O que isso trouxe de benefício? Sim, temos apps brilhantes, transações rápidas e até o transporte privado, mas o preço dessa “eficiência” é salgado e estamos vendo as rachaduras todos os dias.
Pega o exemplo da privatização das companhias de energia. O discurso das corporações neoliberais era lindo: “O mercado vai trazer inovação, competição, preços mais baixos”. Mas, na prática, o que vemos? Apagões e tarifas abusivas. Quando você transforma um serviço essencial em um negócio puramente focado no lucro, a lógica do “máximo ganho pelo mínimo investimento” reina. Em vez de expandir a infraestrutura e modernizar a rede elétrica, as empresas privadas cortam custos, deixam de investir em manutenção e jogam a culpa nas “mudanças climáticas” quando o sistema falha.
E nem vamos entrar na questão da água. Em vez de pensar em estratégias de longo prazo para garantir o acesso a todos, a privatização das redes de abastecimento simplesmente transformou água em mercadoria. A crise hídrica que vemos em várias regiões não é só culpa da falta de chuva. É falta de planejamento, é priorizar o lucro sobre o acesso ao bem mais básico de todos. Parece absurdo, mas estamos vivendo o pesadelo do futuro distópico que tantos livros de ficção científica previram: corporações lucrando em cima da nossa sede.
Quem nunca esperou uma eternidade por um ônibus lotado ou ficou preso num trem que parou no meio do caminho por “problemas técnicos”? A privatização do transporte público criou um dos maiores problemas urbanos modernos: uma rede deficitária que atende apenas as regiões lucrativas e deixa a periferia literalmente à margem. De novo, o lucro ditando o serviço. E como o Estado vai recuar para corrigir essa distorção quando ele mesmo entregou as chaves para o setor privado? O que sobra para o cidadão é rezar (pra quem ainda acredita) para o Uber não estar caro demais naquele horário.
Antigamente, o transporte era pensado para servir a massa, mesmo que com limitações. Havia subsídios, investimentos públicos e uma ideia de que a locomoção era um direito, não um luxo. Hoje, o transporte virou um balcão de negócios onde a qualidade é inversamente proporcional ao lucro das empresas. O mesmo vemos nos aplicativos de transporte: no começo, barato, acessível, parecia a salvação. Hoje, preços dinâmicos que triplicam na chuva e feriados, mostrando que tecnologia privatizada é só outro jeito de explorar o povo.
Com as privatizações e a falta de uma gestão pública sólida, as infraestruturas que dependem de manutenção constante estão entrando em colapso. As estradas esburacadas, pontes caindo, sistemas de telecomunicação falhando... Como chegamos a esse ponto? Simples: lucro acima de tudo. E quando a coisa aperta, as corporações privatizadas jogam a culpa no governo, dizendo que não recebem o suficiente para manter a qualidade. É um ciclo vicioso onde todos saem perdendo, menos os acionistas.
E se você acha que o avanço das tecnologias digitais, como o 5G, vai resolver nossos problemas, é melhor sentar e esperar. As grandes corporações de telecomunicações, que hoje dominam o mercado, priorizam as regiões onde o retorno financeiro é garantido. Se você mora no interior ou em áreas menos “interessantes” para eles, prepare-se para uma internet de qualidade duvidosa enquanto o marketing exibe smartphones brilhantes e promessas de um mundo hiperconectado. Só não mencionam que esse futuro só vai funcionar para quem pode pagar.
Água, luz, energia, transporte e telecomunicações são serviços que nunca deveriam ter sido entregues ao mercado. Esses bens não são mercadorias; são direitos básicos. Mas, com a onda neoliberal dos anos 90, sob o argumento de que o setor privado faria melhor, fomos iludidos. Agora, estamos pagando o preço, literalmente. O colapso de serviços essenciais, as tarifas absurdas e a falta de acesso mostram que privatizar é um caminho sem volta.
Se queremos um futuro onde as tecnologias realmente sirvam à sociedade, e não ao lucro das corporações, precisamos de um retorno ao controle público. Sim, há espaço para inovação, mas essa inovação precisa ser feita com uma lógica de bem comum, e não de ganho financeiro. O Estado precisa retomar a dianteira em setores estratégicos, não só como regulador, mas como garantidor de direitos. Não dá mais para fingir que o mercado vai se autorregular e resolver tudo – isso é conto da carochinha.
Estamos em um momento decisivo. As escolhas que fazemos agora, sobre como queremos que os serviços públicos sejam geridos e para quem a tecnologia deve servir, vão definir nosso futuro. A resposta? Precisamos de mais controle estatal sobre os recursos essenciais, mais regulação para impedir os abusos das megacorporações e, acima de tudo, repensar a lógica privatista. Tecnologia não pode ser uma desculpa para o desmonte do que nos sustenta como sociedade.
Então, da próxima vez que faltar luz, água ou o transporte te deixar na mão, lembre-se: isso é resultado de um sistema que prioriza o lucro sobre o direito. E, acredite, a tecnologia não vai nos salvar disso – a não ser que a usemos para retomar o controle do que nunca deveria ter sido privatizado.